Arte que vem do brejo

Terça, 28 Agosto 2012 18:43 Escrito por 

Com dedicação, muita criatividade e respeito ao meio ambiente, artesãos fluminenses tiram seu sustento da produção de peças trançadas com taboa.

A cada 15 dias, Sebastião Rangel da Silva – o Tiãozinho – vai para o brejo perto de sua casa colher taboa (Typha dominguensis). A fibra é sua matéria-prima na produção de artesanato de qualidde, feito em família. Munido de foice e com muita disposição, ele caminha dentro d’agua sobre um ‘tapete’ de folhas e rizomas mortos depositados no leito do rio. Até parece andar sobre um colchão. A labuta começa nas primeiras horas do dia e se estende até a hora do almoço. Tiãozinho chega em casa ensopado, com 10 a 12 feixes de folhas selecionadas de ‘praga boa’, como chama carinhosamente a planta. Elas são penduradas para secar e após alguns dias estarão no ponto para serem trançadas.

 

A taboa é uma planta aquática rústica, de crescimento rápido, capaz de ser alastrar em pouco tempo por brejos, lagoas rasas e até áreas encharcadas com água salobra. Assim como os aguapés, é uma planta depuradora, quase um filtro natural; sobretudo quando há excesso de matéria orgânica em decomposição ou alguns poluentes persistentes, como metais pesados.

Suas folhas, com alto teor de celulose, transformam-se , nas mãos dos artesãos do bairro Santa Terezinha , na região de Rio das Flores, sul do Estado do Rio de Janeiro. São peças próprias para decoração de interiores e também de utilidades de doméstica, com amplo leque de opções: jogos americanos, cestos, porta-vinho, porta-revista, bolsas para feira, luminárias, almofadas, moveis, baú para enxoval, tapetes e –o xodó do ateliê —um pufe cuja estrutuara é feita de garrafas PET e o revestimento , com taboa trançada, um dupelo exemplo de uso sustentável de um recurso natural e reciclagem inteligente.

O trabalho artesanal com a taboa começou na vida do casal há um pouco mais de 3 anos e o dinheiro obtido com a vendada peças é suficiente para o sustento de todos. “Começamos no artesanato, pois o salário que ganhava antes era muito pequeno. Sou eu, minha esposa e meus três filhos. Quando chegam da escola, eles aprendem a trançar taboas conosco, no período da tarde”, conta Tiãozinho. “A grande vantagem é que eu trabalho em casa e estou o tempo todo com meus filhos. Procuro ensiná-los, pois amanhã poderá ser muito útil a eles”, diz, orgulhosa, Ângela Rangel, exibindo a grande variedade de peças na própria casa, onde até os móveis do quarto da filha caçula são feitos com taboa.

Para proteger as fibras contra pragas e fungos, todas as peças recebem uma camada de extrato de neem (Azadirachta indica), uma planta de origem indiana com propriedades repelentes.

Tiãozinho aprendeu a arte de trançar taboas com a mãe, Elza, que mora ali, vizinha do casal. A matriarca já tem mais de 45 anos nessa atividade. No início, ela trabalhava na roça de manhã e, depois do almoço, dedicava-se ao artesanato, parando só de madrugada. Chegou a fazer 20 tipos de peças diferentes. “Produzia, é claro, as que vendiam mais. Consegui criar meus 9 filhos com cestaria de taboas. Quase todos eles trabalham nessa arte”, afirma. E revela um segredinho de quem já tem muitos anos ‘de estrada’ par quem pensa em investir nessa aera: “Para se fazer um artesanato de taboa diferenciado, é necessário, acima de tudo, muita criatividade e gostar do que vai fazer . Muitas revistas nos dão boas ideias. Já cheguei a desmanchar uma bolsa inteira somente para aprender a técnica de acabamento.”

Todas as peças produzidas por Tiãozinho e Ângela são enviadas à Florart, uma associação de Manuel Duarte, no distrito de Rio das Flores (RJ), e de Belmiro Braga, nos distritos de Porto das flores e São José das Três Ilhas (MG). A Florart começou suas atividades também há anos no galpão da igreja de Manuel Duarte. Depois, com o aumento do numero de associados, passou para uma pequena estação de trem de ferro do distrito, doada pela Prefeitura de Rio das Flores. A educadora aposentada Conceição de Paiva (Cidinha), entrou em cena como coordenadora voluntária e, com sua gestão prática e arrojada, conseguiu promover o artesanato na comunidade, usando uma matéria-prima farta e local. "O artesanato de taboas é atualmente o forte da Florart e é produzido basicamente em núcleos familiares. A Ângela, por exemplo, é muito inteligente e determinada. Quando a Associação precisa de um ‘modelito’ diferente, ela e o Tiãozinho varam a noite produzindo a nova peça”, conta Cidinha, cuja meta é levar esse artesanato para todos os cantos do Brasil.

Atualmente, são 70 artesãos reunidos na associação. Além da taboa, eles utilizam bambus gigantes e algumas mulheres trabalham com bordados em ponto cruz e tecidos com ‘aplicação’ de retalhos, principalmente camisetas com design de figuras abstratas. Cidinha gosta de lembrar a frase de um médico do Posto de Saúde de Belmiro Braga: “A Florart não pode deixar de existir jamais. Varias senhoras da comunidade não saiam do postinho. Com a associação, elas sumiram de lá”. Nas oficinas, sempre às quintas-feiras, as participantes interagem, trocam ideias e aguçam a criatividade, elevando sua auto-estima. “O dinheirinho que ganho com o artesanato me ajudou muito no orçamento domestico”, reforça Maria Teresa Magalhães, exímia no ponto cruz. “De vez em quando faço até uma gracinha e compro algo pra mim”.

Ler 10356 vezes Última modificação em Domingo, 16 Dezembro 2012 20:44

                                  

Florart - Associação dos Artesãos de Manuel Duarte e Porto das Flores

Antiga Estação de Manoel Duarte - Rio das Flores - RJ

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